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Lidando com a Covid-19 - parte 2


tradução do post publicado originalmente por Martin Fowler em seu site no dia 13 de março de 2020


Algumas semanas atrás, eu escrevi algumas notas sobre como a ThoughtWorks tem sido afetada e está lidando com a doença provocada pelo coronavírus 2019 (Covid-19). Nós vimos a crise cedo, devido aos nossos vários escritórios na China. Achei que agora seria um bom momento para fornecer uma atualização. [1]


Nossas prioridades de governança para lidar com isso são:


1. Ter foco na saúde e segurança de nossas pessoas

2. Ajudar nossas clientes, pois este é o nosso negócio

3. Ajudar a retardar a disseminação da doença na comunidade. A maioria das pessoas da ThoughtWorks é jovem e saudável, portanto, provavelmente só terá um problema leve se infectada pela Covid-19. Mas todo mundo, saudável ou não, que tenha o vírus pode transmiti-lo para outras pessoas. Ao reduzir as viagens e o contato, podemos fazer nossa parte para retardar a propagação da doença. Mesmo que o número total não seja reduzido por uma propagação mais lenta, isso reduzirá a pressão sobre a infraestrutura de assistência médica, proporcionando às pessoas em situação de vulnerabilidade social uma melhor chance de lidar com a doença.

4. Deixar nossas equipes regionais orientarem as respostas de acordo com as condições locais. Nós forneceremos suporte global e incentivaremos nossas equipes de respostas locais a compartilhar experiências entre si. Pensamos que adaptar a resposta local às condições locais é mais importante do que uma política globalmente consistente.


Um dos aspectos mais intrigantes disso é o quanto nós ainda não sabemos. Nós não sabemos o suficiente sobre como a transmissão funciona. Não sabemos o quão mortal é a doença. Parece provável que seja mais grave do que a maioria das gripes sazonais e pode ser uma ordem de magnitude pior. Mas, felizmente, é quase certo que não é tão ruim quanto a Gripe Espanhola. Não sabemos se sua transmissão e seus efeitos serão reduzidos à medida que o Hemisfério Norte se aquece. Nesse caso, existe um risco real de que as pessoas pensem que foi exagerado, não façam preparativos prudentes e teremos um surto pior no próximo inverno.

 

A taxa de novas infecções caiu rapidamente na China e podemos abrir nossos escritórios novamente, no entanto, existem algumas diferenças significativas na vida normal nesses escritórios. No momento, espera-se que todas as pessoas na China usem máscaras cirúrgicas em público. [2] O governo exige que qualquer escritório tenha um suprimento adequado de máscaras para ter permissão para abrir. As pessoas devem manter uma distância de pelo menos um metro, todos os assentos devem estar com pelo menos esta distância. Todo mundo que entra no escritório tem sua temperatura verificada. [3] Todas as superfícies são limpas três vezes ao dia. Estamos limitando nossos escritórios a não mais que 50% da ocupação habitual.


Continuamos a ter cada país tomando suas próprias medidas, de acordo com as diretrizes das autoridades sanitárias específicas de cada país. Mas existem medidas globais que estamos tomando.


Todas as viagens e eventos internos foram cancelados por padrão até o final de junho. Isso significa que as próximas sessões da ThoughtWorks University, que mudamos de Xi'an para o Brasil, ocorrerão remotamente um novo desafio para nós no trabalho remoto. Também estamos mudando a reunião que desenvolve o Technology Radar da ThoughtWorks para uma reunião remota. Sempre sentimos que esse tipo de evento precisa ser realizado pessoalmente, e ainda o fazemos, mas, nessas circunstâncias, precisamos forçar nossos limites do que fazemos remotamente. Também recomendamos que qualquer pessoa que vá participar de um evento com 150 ou mais pessoas considere seriamente não ir.


Muitas de nossas clientes estão adotando medidas semelhantes, muitas impediram a entrada de pessoas externas que visitam as instalações da empresa. Isso é compreensível, pois uma coisa é a pessoa ser infectada por alguém com quem trabalha, torna-se mais difícil a situação se a pessoa é infectada por alguém de outra empresa. Especialmente dada a natureza litigiosa da cultura dos EUA.


Em nossos projetos de clientes, conversamos com nossas clientes sobre como continuar remotamente. Nem todas as clientes estão configuradas para isso, então estamos trabalhando com as empresas para transmitir nossas experiências em atuação remota. Trabalho remoto involuntário como este pode mostrar a algumas pessoas que o trabalho remoto é mais eficaz do que elas pensam. Mas há também um risco nestas circunstâncias o trabalho remoto provavelmente será mal configurado e, portanto, causará uma má impressão em comparação com o modo como as coisas podem acontecer quando funcionam bem.


Nosso grupo de pessoas técnicas (TechOps) criou um centro de conhecimento interno (hub) para coletar o máximo de informações possíveis para lidar com o trabalho remoto, muitas das quais espero poder compartilhar publicamente nas próximas semanas.


Uma questão específica aqui na ThoughtWorks são as inceptions que fazemos no início de um grande trabalho. São reuniões altamente colaborativas, projetadas para reunir todas as pessoas afetadas pelo trabalho. Descobrimos que podemos fazer essas reuniões remotamente, com um nível menor de eficácia, se todas as pessoas envolvidas já estiverem familiarizadas entre si, como em um próximo estágio da evolução de um produto. Mas, em muitos casos, as pessoas não se conhecem, e isso torna a inception remota mais difícil de realizar. 


Quando as equipes ainda precisam de colaboração frente a frente, uma das abordagens que usamos é dividir a equipe em duas, assim apenas metade do time vai para o escritório por vez e evitamos contato físico entre os diferentes subgrupos. Dessa forma, se uma infecção atingir alguém da equipe, apenas metade de equipe estará em risco.


Nem todo mundo tem coisas preparadas para trabalhar em casa. Em alguns casos, as pessoas pegaram emprestado monitores e outros equipamentos de escritório. No entanto, não podemos fazer muito por aquelas pessoas que não têm uma sala decente pra trabalhar. Se as escolas fecharem, os cuidados com as crianças também serão uma preocupação para quem trabalha em casa. Também descobrimos que a largura de banda está se tornando um problema. As redes locais de telecomunicações estão tendo que lidar não apenas com mais pessoas trabalhando em casa, mas também com crianças em idade escolar enviadas para casa que têm tarefas escolares (e, é claro, muitos jogos que usam muita largura de banda para rodar).


Continuamos a pedir a quem viajou para uma área de alto risco que trabalhe em casa, e a quem estiver doente para permanecer em casa. Além disso, qualquer pessoa em um grupo de alto risco (devido à idade ou condições médicas pré-existentes), ou que mora com alguém com alto risco, deve trabalhar em casa.


Como se trata de uma crise no setor de saúde, um dos riscos é que pessoas-chave na nossa organização fiquem doentes. É provável que a Covid-19 seja mais séria para as pessoas idosas, e as pessoas que são líderes seniores tendem a ser mais velhas. Portanto, uma medida que estamos tomando é garantir que planejamos ter pessoas capazes de intervir rapidamente caso uma pessoa-chave fique doente. Mesmo em tempos normais, as equipes devem garantir um plano para lidar com a indisponibilidade repentina de qualquer membro devido a uma doença ou outra crise essa crise reforça esse princípio.

 

Se o prognóstico de saúde da Covid-19 é difícil de prever, isso é duplamente válido para as consequências econômicas. Algumas empresas verão uma perda de receita a curto prazo, mas se tudo der certo vão se recuperar rapidamente assim que as coisas se acalmarem. Outras empresas podem ver a receita postergada até a recuperação da economia. Empresas que vivem perto da linha financeira podem não sobreviver à provável recessão, mesmo que curta. As pessoas mais vulneráveis são aquelas com empregos inseguros, muitas vezes sem plano de saúde, que mal podem se dar ao luxo de tirar uma folga.


No nosso caso, nós construímos um modelo simples para avaliar o risco para nossos negócios. Embora simplista, ajuda a estruturar o pensamento. Nós esboçamos alguns cenários de como a pandemia ocorrerá. Isto nos ajuda a considerar que resposta inicial precisaremos para eles e que sinais devemos procurar para perceber qual cenário está ocorrendo. Até agora, os sinais mostram que nossa maior preocupação é a demanda, pois vemos nossas clientes reduzindo novos trabalhos, umas vez que sofrem impacto em suas receitas. Nós estaremos monitorando isso e refinando o modelo nas próximas semanas e meses. Nosso envolvimento na China teve a desvantagem de nos afetar mais cedo do que a maioria, mas agora funciona a nosso favor, pois podemos aprender com nossas experiências de lá. 


Uma crise como esta põe pressão sobre sistemas e políticas de uma organização. Se uma organização mantém firmes demais os controles regulares, limita a eficácia de sua resposta à nova situação. Mas, se deixar tudo livre, se expõe a grandes riscos exatamente no momento em que sua capacidade de absorver os impactos é fraca. Tentamos equilibrar essas forças delegando a tomada de decisão para as equipes locais. Contamos com as redes entre essas equipes, e não com uma hierarquia singular, para manter as pessoas informadas e coordenadas. O trabalho que fazemos para desenvolver a confiança e as valiosas estruturas de comunicação durante os bons tempos é um investimento pelo qual lucramos em tempos difíceis como esse.


Enquanto escrevo isso, o mundo parece bastante assustador. Estamos vendo mais países implantando confinamento social obrigatório, mais proibições de viagens, mais apelos ao distanciamento social. Por mais que eu seja do contra, estou na verdade realmente aliviado. Me parece que finalmente o mundo está levando este vírus a sério. É importante não exagerar não se trata de uma Gripe Espanhola ou Peste Negra. Mas se não exageramos um pouco, veremos muito mais mortes e sofrimento do que deveríamos. Sou encorajado pela seriedade com que colegas de trabalho estão lidando com tudo isso. Problemas como esses não são os nossos favoritos para lidar, mas ainda acredito que a força principal da ThoughtWorks está no enfrentamento de eventos dramáticos e imprevisíveis com calma e compaixão. Espero que o resto da sociedade tenha uma atitude semelhante.


Notas


1: Esta é uma situação que está mudando rapidamente, e as circunstâncias têm pouca paciência com maneira descontraída com que costumo fazer a coleta e revisão de minha informações. Se eu fizer uma alteração substancial, irei anunciá-la nos meus feeds do twitter e RSS.

2: O uso de máscaras cirúrgicas em público é algo que varia de acordo com a cultura. Quase nunca vejo alguém usando essa máscara nas ruas da Europa ou das Américas. No Japão não é incomum, pois é esperado que você use uma se estiver resfriado, para você não infectar outras pessoas. Elas também não são incomuns na China, embora até agora isso seja mais para aquecer e evitar o ar poluído.

3: Pessoas podem estar infectadas e não ter alterações de temperatura, então esta medida não é infalível de forma alguma. No entanto, incentiva aquelas que estão doentes a ficar em casa.


Agradecimentos


Para reunir material para esta atualização, fiz uso de documentos internos, emails, conversas e as inevitáveis chamadas de Zoom. Então, meus agradecimentos vão para todas as pessoas que enfrentam uma crise urgente e nova e lutam contra isso no estilo com o qual me acostumei. 


No entanto, eu deixarei uma mensagem especial a Andy Yates pela redação de um parágrafo particularmente apropriado. Ni Wang, Shangqui Liu e Hu Kai me informaram da situação atual em nossos escritório na China. Lei Pan tem enviado atualizações internas úteis sobre a situação na China.


Saiba mais sobre como a ThoughtWorks tem lidado com a COVID-19