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CORAGEM #3


Ninguém é mais o que foi ou será

Vivemos um momento histórico de transição. Pessoas e máquinas, negócios e decisões. Seu futuro já começou a acontecer.


Alexey Villas Bôas e Camilla Crispim


Vivemos em um mundo em transformação. Embora sempre possamos afirmar isso — afinal, o mundo está em constante mudança a todo momento — , há certas épocas em que um conjunto de elementos converge e quebra paradigmas, valores e comportamentos do passado. É o caso das revoluções industriais. Estamos vivendo hoje a Quarta Revolução Industrial, e este é um desses momentos históricos transformadores.


A Primeira Revolução Industrial, entre 1760 e 1830, marcou a evolução da produção manual à mecanizada. A segunda, por volta de 1850, trouxe a eletricidade e permitiu a manufatura em massa. E a terceira aconteceu em meados do século XX, com a chegada da eletrônica, da tecnologia da informação e das telecomunicações.


A Quarta Revolução Industrial diz respeito a mudanças profundas nas indústrias — novos modelos de negócio, disrupções tecnológicas e novas formas de consumir e produzir –, sociedades — a maneira como nos comunicamos e nos relacionamos — e instituições — modelos de educação, saúde e transporte sendo revistos, bem como governos. E essas mudanças ocorrem em uma velocidade nunca antes vista, abrangendo todo o globo, com uma profundidade tremenda e trazendo impactos de fato sistêmicos.


Em seu livro The Fourth Industrial Revolution, Klaus Schwab, diretor executivo do Fórum Econômico Mundial e o principal responsável por cunhar o termo, diz que “estamos no começo de uma revolução que está mudando fundamentalmente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Em sua escala, escopo e complexidade, o que eu considero a Quarta Revolução Industrial é diferente de qualquer coisa que a humanidade já viveu antes”.


É inegável que cada vez mais nos integramos à tecnologia que nos cerca. Somos muitas, de diferentes idades, algumas de nós nasceram com o celular nas mãos, outras aprenderam a usar o que surgiu como novidade. Hoje uma pessoa de 18 anos nasceu junto com o iPod, pen drive e wi-fi para uso doméstico. Quem tem 30 hoje, nasceu junto com o mouse, fax, Game Boy, walkman. Já quem está nos 50, conheceu seu primeiro celular na idade adulta.


Há uma diferença no nosso entendimento a partir de como a gente aprende a se relacionar com a tecnologia. E uma diferença entre o que nos parece novo e o que parece natural. Alan Kay, um dos mais famosos cientistas da computação, definiu bem quando afirmou que “tecnologia é tudo aquilo que não existia quando você nasceu”.


As relações com a tecnologia evoluem não somente porque a tecnologia em si evolui, mas porque nós, seres humanos, mudamos a maneira como interagimos com ela dependendo de como a normalizamos no nosso cotidiano. Mudamos a nossa forma de nos relacionarmos com as empresas e, dessa forma, transformamos sistemas de produção inteiros.


E essas mudanças estão acontecendo cada vez mais rapidamente. O Uber, em cerca de 5 anos, dizimou a indústria de táxi de 400 anos em Nova Iorque. O tempo médio de vida das empresas da Fortune 500 passou de 67 anos em 1960 para 15 nos dias de hoje. Atualmente, a vida útil de um produto lançado no mercado é de menos de 2 anos.


É claro que essa transformação não poderia acontecer sem trazer consequências sociais e éticas profundas. As projeções de impacto que a evolução de tecnologias como Inteligência Artificial trazem para a empregabilidade e as preocupações crescentes com privacidade são apenas dois exemplos.


Por tudo isso, as organizações estão mudando. Muitos dos paradigmas de gestão não se aplicam no momento em que precisamos encantar clientes, engajar pessoas colaboradoras tendo um propósito como nossa principal estratégia de retenção e alavancar a capacidade criativa de todo mundo dentro da empresa.


E como isso muda o meu negócio? O que eu preciso pensar quando estiver desenvolvendo produtos, serviços, mercados e buscando inovação?


Estamos falando não somente de um aumento no número de pontos de contato com clientes. A interação humano-máquina vai mudar radicalmente nos próximos anos, mais do que mudou nos últimos 10 anos. É uma nova fronteira que estamos quebrando e dessa vez ela vai fazer você repensar muito mais coisas do que a Internet fez há 20 anos.


Abalos sísmicos


Aqui na ThoughtWorks, diariamente voltamos nosso olhar para o que afeta e dirige inovações tecnológicas no mundo inteiro e em uma gama extremamente ampla de mercados. Por isso, periodicamente, elaboramos nossa estratégia de tecnologia: ela dirige não só investimentos internos, mas também os principais elementos de inovação que dão suporte a nossas clientes.


Atualmente, vemos cinco abalos sísmicos surgindo no mundo da tecnologia com potencial para mudar a forma como vivemos e como fazemos negócios. São eles: crescimento das plataformas; interações em evolução; humanidade aumentada; físico, agora digital; segurança, privacidade e transparência.


Cada um desses abalos reflete os impactos que uma combinação de tecnologias deve causar na sociedade e nos negócios.


1. Crescimento das plataformas

A maneira de construir e entregar software para pessoas consumidoras está mudando. A evolução de tecnologias de software como serviço, arquiteturas modernas de microsserviços e tecnologias de conteinerização permite criar plataformas de serviços reutilizados na organização. Isso muda a dinâmica de desenvolvimento de software e aumenta muito a velocidade com a qual as empresas conseguem experimentar e inovar.


Para uma empresa que possui uma plataforma madura de serviços de negócio, testar novas experiências digitais para suas consumidoras requer apenas uma fração de esforço e custo quando comparada a uma organização que não tem essa estrutura.


Além disso, empresas com essas capacidades conseguem engajar desenvolvedoras externas e nutrir um ecossistema de cocriação em torno de seu negócio. Veja o que a Amazon fez com Alexa. Não se trata apenas de um gadget bacana (e bonito) de se ter em casa, mas também de uma plataforma de skills que podem ser criadas por qualquer pessoa. O potencial de integração com produtos e serviços existentes é enorme e possibilita que Alexa cresça em uma velocidade espantosa. Sem que a Amazon tenha que fazer nenhum esforço, novas possibilidades são adicionadas à plataforma. Isso se torna possível por meio de sua plataforma aberta de desenvolvimento.


2. Interações em evolução

Se eu consigo pedir exatamente o que quero para um assistente pessoal como Siri ou Alexa, pra que servem aplicativos em meu smartphone? Quando nos damos conta de tendências como morte de aplicativos, processamento de linguagem natural, realidade virtual (RV) e aumentada (RA), percebemos que a maneira como interagimos com a tecnologia está em evolução. De fato, a tecnologia vai ficar cada vez mais parecida com o que a gente conhece como humano. E, por isso, interações entre seres humanos e computadores ficam cada vez mais próximas das naturais.


Já não conseguimos trabalhar sem mandar uma mensagem em um chat, ou responder algo por e-mail. Aos poucos, esse comportamento se expande para novas tecnologias que trabalham mais ainda com o digital, como Realidade Virtual e Realidade Aumentada . Ficar conectada 100% do tempo não é um problema tão grande como era há 5 anos atrás. E, embora óculos sofisticados de RV ainda pareçam pouco acessíveis, a recente explosão do Pokémon Go grita aos ventos que a adoção de Realidade Aumentada já aconteceu. E a tão falada aceitação cultural da fusão entre o mundo digital e físico se deu sem nenhum alarde (para quem nunca jogou Pokémon Go, você só precisa apontar a câmera do seu celular para pontos específicos da cidade, e, mais do que isso, precisa estar lá).


Ainda na mesma ideia de não termos mais uma divisão do físico e do digital, temos a enterprise VR aparecendo, na qual os ambientes digitais são usados, por exemplo, para treinar pessoas engenheiras na manutenção de turbinas do mundo real. Os incentivos financeiros para esse tipo de aplicação são enormes. Afinal, você não precisa ter especialistas em manutenção de equipamentos espalhadas pelo mundo se uma pessoa com formação básica pode ser orientada por uma especialista que está a muitos quilômetros de distância, mas vê todo o ambiente como se estivesse presente. Ou imagine ainda uma pessoa com deficiência que pode dirigir um carro por meio do pensamento.


Essas novas formas de interagir com sistemas computacionais são altamente potencializadas por tecnologias relacionadas a Inteligência Artificial e aprendizagem de máquina, ampliando aquilo que conseguimos fazer no dia a dia.


3. Humanidade aumentada

Essa colaboração entre inteligência de máquina e as habilidades humanas representa mais um de nossos abalos sísmicos. De fato, fala-se mais sobre substituição de trabalho por máquinas do que sobre possíveis colaborações. Um exemplo bem interessante vem do xadrez. É bem conhecido o desafio entre Garry Kasparov e o sistema Deep Blue, da IBM, que marcou a primeira vez na história em que um campeão mundial de xadrez foi derrotado por um computador. Mas pouco se fala sobre uma modalidade de xadrez que emergiu recentemente depois dessa famosa disputa. Em vez de pessoas competirem com máquinas, criou-se uma modalidade que forma times mistos, compostos por pessoas e algoritmos. Quando atuam em conjunto, esses times mistos têm um desempenho muito superior a qualquer time composto só por pessoas ou somente por máquinas.


E, de fato, o potencial para aplicações de tecnologias de inteligência de máquina é enorme. Kevin Kelly, um dos fundadores da revista Wired, argumenta que existe potencial para trazermos “cognificação” para todos os processos presentes em nosso dia a dia hoje, tornando essa colaboração cada vez mais intensa e difusa, ampliando aquilo que conseguimos fazer ou tornando tudo isso muito mais fácil — a ponto de não fazer muito sentido deixar de usar. Danny Shapiro, da NVIDIA, tem uma provocação e analogia interessante: você pode dirigir por uma metrópole como São Paulo na hora do rush (o exemplo que ele usa na verdade é Manhattan, mas funciona bem com São Paulo também) sem GPS e informação de trânsito em tempo real, se quiser. Mas por que você faria isso?


Esse mesmo tipo de raciocínio deve emergir para colaboração entre pessoas e algoritmos de inteligência de máquina que conseguem analisar situações — e até tomar decisões — de forma muito mais eficiente.


Uma aplicação especialmente interessante de inteligência de máquina é impulsionar a viabilidade de trabalharmos lado a lado com diversos tipos de robôs.


4. Físico. Agora digital.

Robôs estão presentes em nossa sociedade há muito tempo. Mas as grandes mudanças aqui nos parecem ser a viabilidade econômica deles e seu uso combinado com coleta de dados via sensores e inteligência de máquina.


O Baxter, construído pela Rethink Robotics é um bom exemplo. Trabalhar com robôs é, tradicionalmente, perigoso. Não é à toa que eles ficam em áreas de segurança isoladas em indústrias, e o Baxter promete mudar isso. Além de ser consideravelmente mais barato — de US$ 100.000 para algo em torno de US$ 25.000 –, ele usa algoritmos sofisticados para trabalhar lado a lado com pessoas de forma segura. Além disso, algoritmos de inteligência de máquina permitem que ele “aprenda” o que precisa ser feito, reduzindo custos de programação, treinamento e manutenção.


E não podemos falar sobre robôs hoje em dia sem citar os grandes avanços em veículos autodirigíveis. O Lyft, principal concorrente do Uber nos Estados Unidos, está lançando uma frota de veículos autodirigíveis em São Francisco. Embora exista muito barulho em torno de veículos de passeio autodirigíveis, existe um potencial enorme em aplicações mais específicas, como indústrias ou agronegócio. Imagine o impacto de toda essa automatização em centros de distribuição automatizados ou em máquinas agrícolas que dispensam condutores.


Recentemente, trabalhamos em um protótipo para combinar o uso de drones e visão computacional para medições de volumes de silos. É um bom exemplo de como essas tecnologias podem trazer soluções criativas e de baixo custo para problemas historicamente muito difíceis.


Todo esse movimento vem acompanhado de mudanças profundas na produção e competitividade econômica de hardwares e sua conectividade. A previsão do número de dispositivos conectados à Internet nos próximos anos é impressionante: 28 bilhões até 2021.


5. Segurança, privacidade e transparência

Do ponto de vista do desenvolvimento de software, a maneira como lidamos com segurança precisa evoluir. É incrível como os processos atuais de garantia de segurança em nossas aplicações lembram processos de teste antes do surgimento de abordagens ágeis: de forma geral, equipes criam software virtualmente sem se preocupar com aspectos de segurança, até que uma equipe externa audita o que foi produzido depois que o software está “pronto”, em estilo “caixa-preta” (recorremos aqui à referência a uma abordagem de testes que, felizmente, já passou).


É preciso evoluir as práticas de desenvolvimento para incorporar segurança no processo de criação do software em si e elevar a maturidade das conversas sobre segurança com áreas de negócio e pessoas consumidoras. Infelizmente, ainda é muito comum que requisitos de segurança sejam expressos de forma binária: “sim, o software precisa ser seguro”, sem uma compreensão de que existe um espectro de investimento e trade-offs para diferentes níveis e aspectos de segurança de um sistema.


Quando a maturidade dessa discussão aumenta, naturalmente surge o questionamento sobre quais cuidados específicos são necessários para quais tipos de informação, e assim nasce a conversa sobre privacidade e o que prometemos para as pessoas consumidoras nesse sentido.


A questão é profunda e tem implicações enormes na sociedade como um todo. Por um lado, a demanda por transparência é grande: quando eu faço uma compra, quero saber onde meu pacote está, de forma fácil e imediata. Também quero transparência com relação ao que acontece com minhas informações. E, por outro, quero que minha privacidade seja preservada.


A discussão sobre privacidade e transparência é especialmente interessante para chamar nossa atenção para o impacto que novas tecnologias podem provocar. Por um lado, o potencial de ganho e evolução é enorme: negócios digitais, cada vez mais conectados — internamente e externamente, com parceiras de negócio e com pessoas consumidoras — e cada vez mais sofisticados, criando um diálogo de cocriação com clientes e com a sociedade.


Por outro lado, a Internet joga na nossa cara um forte exemplo de que promessas de democratização não se desenvolveram nem um pouco da forma como imaginávamos. De uma promessa de “acesso igualitário para todas as pessoas”, fomos para a altíssima concentração de tráfego na mão de poucas empresas — o Google detém hoje cerca de 80% do mercado de mecanismos de busca globalmente –, levando até mesmo o Banco Mundial a levantar a voz sobre a importância de ações afirmativas para reverter um cenário de concentração de poder.


“A tecnologia não é nem boa, nem má; mas ela também não é neutra”


Melvin Kranzberg, um dos grandes pensadores e historiadores da tecnologia, coloca muito bem quando diz que “a tecnologia não é nem boa, nem má; mas ela também não é neutra”. É irresponsável assumirmos que todo avanço tecnológico é inerentemente bom e será benéfico para a humanidade. Também é irresponsável frear todo e qualquer avanço tecnológico para não tornar as coisas piores. Mas é nosso dever — como tecnologistas, como pessoas cidadãs e como seres humanos — manter os olhos bem abertos para as consequências das escolhas tecnológicas que tomamos. E fazer alguma coisa a respeito.

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