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CORAGEM #1


Você acha que está no comando?


Trinta e cinco mil. É a quantidade média de decisões que um ser humano toma por dia. Significa mais ou menos uma decisão a cada 2 segundos. Dessas, já imaginou quantas são decisões digitais, ou seja, as que tomamos usando equipamentos como smartphones, tablets, computadores, wearables, etc.? Ou que os equipamentos digitais, muitas vezes, tomam por nós?


Como assim?


Existe uma palavra mágica que influencia comportamentos chamada “default” (pronúncia: defôu), são as decisões Capitão Nascimento — pede para sair! O “default” é um dos mais de 150 viéses inconscientes conhecidos e catalogados pela Economia Comportamental (Behavioral Economics), uma área que vem transformando a forma que entendemos como o ser humano toma decisões.


Viéses inconscientes (Cognitive Biases): erros sistemáticos na nossa forma de pensar e tomar decisões. Da mesma forma que nas ilusões de ótica vemos algo diferente da realidade, quando tomamos decisões os viéses nos influenciam a levar em consideração uma realidade limitada. Há várias décadas cientistas como o ganhador do prêmio nobel Daniel Kahneman estudam e catalogam esses viéses para que possamos entender melhor o que eles chamam da irracionalidade do ser humano. Dan Ariely conta no seu livro best seller Previsivelmente Irracional, por meio de vários dos seus experimentos científicos, como a maioria das pessoas se comporta de forma irracional e previsível, como cometemos os mesmos erros e como é possível não só prever, mas influenciar pessoas a agir de uma forma ou de outra.


Na prática, funciona assim:


Na Áustria, 99% das pessoas são doadoras de órgãos. Na Dinamarca, apenas 4%. É que na Áustria as pessoas são automaticamente doadoras de órgãos e precisam “pedir para sair” (opt-out). E na Dinamarca elas precisam pedir para entrar (opt-in).


Simples, não?


Sabe aquele formulário online que diz: marque para não receber ofertas por email? Significa que alguém já tomou a decisão por você de receber ofertas, se você não quiser receber tem que pedir para sair. No mundo da criação de produtos e interfaces digitais existe um poder enorme nas mãos das pessoas de UX (User Experience) e XD (Experience Design). Essas pessoas têm o poder de arquitetar os ambientes de tomadas de decisão. E é no momento de decidir de que modo apresentar opções para as usuárias que o entendimento de como o ser humano toma decisões é essencial.


O que influencia a tomada de decisão?


A grande maioria das decisões são influenciadas por fatores irracionais, falta de atenção, falta do contexto completo com toda informação necessária, fatores emocionais, etc. Existem dezenas de viéses inconscientes que nos ajudam a entender quais fatores influenciam a tomada de decisão e como influenciar essas decisões. Mas o fator que mais influencia na tomada das decisões é o que a Economia Comportamental chama de Nudges. E nós vamos chamar de “empurrõezinhos”. Pode ser? Pois significa exatamente isso, empurrar alguém para que tome uma decisão específica. Por exemplo, se a gente for no Google hoje e pesquisar “onde comer em São Paulo” tem mais de 8 milhões de resultados. 91,5% das pessoas clicam no resultado da primeira página do Google. Ou seja, será que quem escolheu o lugar foi você ?


A compreensão do comportamento humano tem levado diversos produtos digitais a criar mecanismos de dependência das suas usuárias. Mas será que essa dependência é boa? Nir Eyal, autor do livro Hooked: How to Build Habit-Forming Products, fala de dois tipos de influência: Persuasão e Coação.


Persuasão: influenciar pessoas a fazerem o que elas querem e precisam.

Coação: influenciar pessoas a fazerem o que elas não querem e não precisam.


Parte do movimento do Digital Nudge é sobre a conscientização de que os melhores empurrõezinhos são aqueles que ajudam uma usuária a fazer o que já precisa ser feito, ou seja, o que chamamos de resolver uma necessidade.


Assim, a teoria pode ser usada para que pacientes com diabetes saibam o momento certo de tomar insulina com os equipamentos digitais de monitoramento contínuo de glicose. Ou para evitar acidentes de caminhão, como o boné que se chama “Smart Cap”, que faz a medição das ondas cerebrais para detectar um cochilo, evitando acidentes.


Ou seja, podemos usar os “empurrõezinhos” de uma forma negativa ou positiva, exatamente como qualquer tecnologia. E essa possibilidade esbarra na teoria de que a tecnologia é neutra.


Neutra (do latim neuter, neutra, neutrum = “nem um, nem outro”)

significa algo que, por si, não toma partido, é imparcial, indiferente.


A gente poderia dizer isso da tecnologia. Será?

Você já ouviu falar da Cotton Gin? Uma máquina criada em 1793 para separar as fibras do algodão das sementes, processo que antes de sua criação era feito manualmente. Com essa invenção o mercado de algodão se tornou cada vez mais rentável e atrativo, e com a automatização dessa separação do algodão a pressão na produção e colheita se tornou grande. Estima-se que, com isso, o número de escravos trabalhando nas plantações aumentou de 700.000 em 1790 para 3.2 milhões em 1850. Em paralelo a isso, o que vemos é que a cotton gin é considerada um grande marco da revolução industrial e também considera-se que ela possibilitou a criação de diferentes tecnologias impactando até hoje no desenvolvimento da indústria têxtil. Então a criação dela foi boa ou ruim? Nem uma coisa nem outra, exatamente como a tecnologia, a cotton gin é ambígua.


Langdon Winner, professor de Ciência Política no Departamento de Estudos de Ciência e Tecnologia na Rensselaer Polytechnic Institute, Troy, Nova Iorque e colaborador da revista Rolling Stone escreve diversos artigos abordando o assunto. Uma das ideias centrais de sua obra é que tecnologia abriga relações sociais e, portanto, relações de poder. Ele aponta tecnologias supostamente desenvolvidas para impor autoridade sobre as massas: a colhedeira de tomates que eliminou a classe de plantadores na área rural da Califórnia e a mecanização industrial do século 19 que ajudou a extinguir o sindicato local de Chicago.


O objeto tecnológico é em si neutro, o que faz a diferença é o emprego que dele se faz” (Dagnino e Novaes). A questão é: a tecnologia não é — mais — externa a quem somos. É parte integrante do que somos. Porque é um agente modificador da cultura, expande a capacidade humana e introduz novos hábitos sociais. Sozinha? Nunca. Através de pessoas inovadoras, gente de carne, osso e opiniões pessoais.


É justamente por isso que estamos refletindo.


Juntas.


Dê um passinho à frente aí, por favor.

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