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CORAGEM #1


Entrenós


Em 1960, um família vivia em 2062. Os Jetsons, série de televisão criada pela dupla Hanna-Barbera (que também fez os Flintstones e Tom & Jerry) viviam em um mundo com carros voadores, cidades suspensas no espaço e robôs como ajudantes. Ainda não é possível sobrevoar — ao menos com um carro — um engarrafamento e a conquista do espaço é absolutamente concreta apenas no cinema. Mas robôs existem. E estão entre nós.


Porque nem todo robô é um espelho de quem somos. O Q.bo da Intel, foi criado para propósitos gerais tais como cuidar da casa, interagir com Pessoas com Deficiência (PcD), realizar a segurança de determinados locais, entre diversas outras pequenas funções. Apesar de ainda parecer um brinquedo, conta com tecnologia de ponta e de gente grande, e já pode ser adquirido hoje por um valor razoável. Assim, por gente de verdade, sabe? Assim como o Roomba, um robô aspirador de pó já existe em algumas casas. E é sonho de consumo para muita gente. Aliás, você deve conhecer alguém que tem ele em casa ou aquele robô que limpa a piscina. Pois eles são (de certa forma, claro) como os robôs que desarmam bombas e exploram o fundo do mar.


Além disso, carros auto-dirigíveis estão sendo testados por empresas como Tesla, Ford e Google. E se tudo ocorrer como o esperado, os primeiros veículos nos quais intervenções humanas não serão necessárias devem chegar entre 2018 e 2019* ao consumidor final, ou seja, nós. (*a estimativa varia de acordo com a empresa). Também temos os chamados robôs de software como os chatbots, que podem automatizar atendimento em canais virtuais, e softwares robôs que fazem transações em bolsas de valores, e até mesmo balanceamento de investimentos para o público final, de investimento doméstico. Além de drones, claro. Que entre muitas outras coisas estão pastorando — com sucesso — ovelhas.


Mais próximo do nosso imaginário existe um robô japonês chamado Paro, que se parece com uma foquinha branca e interage carinhosamente com a pessoa que é sua dona. É chamado de robô terapêutico, e é utilizado principalmente em asilos e casas de repouso, onde animais de estimação não são bem vindos.


E sim, diversas companhias de tecnologia, como Sony e Honda, já apresentaram seus protótipos de robôs domésticos. Mas é a criação da Aldebaran Robotics, uma empresa francesa, em parceria com a operadora móvel japonesa Softbank a experiência mais bem sucedida nesse segmento. O robô humanóide Pepper está nos lares e em lojas japonesas desde 2014. Com 1,2 metro e 30 quilos, ele é capaz de cumprir pequenas tarefas domésticas, como despertar e informar a previsão do tempo. Ele também reconhece emoções e consegue agir de acordo com elas.


Uau.


E ainda nem falamos dos ciborgues. Eles não vivem mais somente na imaginação dos autores de ficção científica e nos filmes de sessão da tarde. Inclusive, um deles é um artista, compositor e ativista catalão que ouve as cores. Neil Harbisson nasceu com acromatopsia, doença que lhe permitia ver o mundo apenas em preto e branco. Até que em 2003 ele desenvolveu o projeto Eyeborg, “eye” (olho) e “cyborg” (organismo cibernético). E implantou um sensor, atrás da cabeça, que recebe as frequências da luz e transforma-as em frequências sonoras, permitindo assim que ele ouça a frequência das cores através de uma condução óssea. Em 2010, ele criou a Cyborg Foundation (Fundação Cyborg). O objetivo? Ajudar as pessoas a se tornarem ciborgue, garantindo seus direitos e promover o “ciborguismo”, como um movimento artístico e social. Em 2013, ele implantou também uma antena na coluna, que permite que ele se conecte às cores que as outras pessoas podem enxergar. Desde então ele se dedica a “retratos sonoros”, convertendo as cores da face em música e pinturas.


Moon Ribas, coreógrafa e co-fundadora da fundação, também é artista e ciborgue. Implantou em seu corpo um chip que vibra diante de qualquer abalo sísmico no mundo. Ela sente — de verdade, no corpo — qualquer terremoto em tempo real. Um de seus espetáculos se chama “Esperando por Terremotos”: ela fica no palco esperando um terremoto acontecer. Quando acontece, se move de acordo com a intensidade dele. Quando não acontece, não existe dança.


Em 2016, os dois artistas foram recebidos pela ThoughtWorks de Nova Iorque, em uma residência artística de 16 semanas, nas quais os convidados — artistas de várias partes do mundo — recebiam um salário regular e apoio de nossa rede global de analistas, designers, desenvolvedores e outros especialistas para criações de tecnologia e arte capazes de inspirar mudanças, sugerir novas perspectivas e movimentar o debate.


Outra parceria nossa foi com a empresa Xenex, com a qual trabalhamos em robôs para hospitais, ajudando a esterilizar ambientes de modo a proteger a vida humana e evitar contaminações. Esse robô foi projetado , para ser controlado por tablet que se separa do corpo principal do robô quando necessário, permitindo seu controle de forma remota. Em apenas cinco anos, a Xenex tornou-se líder mundial em desinfecção hospitalar. Seus parceiros viram uma queda de 53% na presença de superbactérias em seus ambientes. Como eles continuam a melhorar a tecnologia cada vez mais, uma de suas metas é fazer do robô Xenex um padrão global.


Isso tudo significa que os robôs são 100% confiáveis?


Robôs são controlados por algum algoritmo que foi escrito por alguém. Podem haver falhas nesses algoritmos. No caso de sistemas de inteligência artificial que irão se adaptar de acordo aos estímulos externos, tivemos um caso interessante e preocupante recentemente com uma Inteligência Artificial de uma grande empresa, que acabou adquirindo uma “personalidade” duvidosa depois de um tempo aprendendo na Internet. Mas cá entre nós, o que no mundo é 100% alguma coisa? O fato é: para muitas das atividades, por mais que seja impossível se assumir confiabilidade total, robôs provavelmente serão mais eficientes, eficazes e seguros devido à sua força, velocidade, capacidade de processamento, ausência de cansaço ou estresse.


Eles podem de fato substituir pessoas?


O cinema já explorou essa possibilidade e suas conseqüências, com potenciais bastante desastrosos do ponto de vista de Hollywood, em diversos filmes e séries. Autor de mais de 500 publicações, o russo Isaac Asimov explora as possibilidades de andróides passarem a ter sentimentos nos contos Eu, Robô e O homem bicentenário.


O primeiro, estrelado por Will Smith, conta a história de um robô acusado de assassinar seu criador e capaz de quebrar as Três da Robótica — criadas por Asimov: robôs não podem machucar humanos; robôs devem obedecer humanos, caso isso não contrarie a Primeira Lei; e devem proteger a si mesmos, caso isso não contradiga a Primeira e a Segunda Leis.


Já em O Homem Bicentenário, um robô doméstico, interpretado por Robin Williams, passa a ter emoções e pensamento criativo. O filme narra sua trajetória de interações com humanos ao longo de dois séculos.


Em Ela, de Spike Jonze, um jornalista solitário se apaixona por um sistema operacional criado para atender a todas as necessidades da usuária. Imagine se relacionar com “alguém” que, embora não possa realizar seus desejos físicos, atenda a todas as suas demandas emocionais? Difícil resistir e mais ainda ter um final feliz.


Mas este não é o único impedimento. Como funcionam ligadas à Internet, as máquinas autônomas podem ter falhas de segurança. É o que aponta um relatório da empresa de consultoria em segurança digital IOActive. Segundo a empresa, alguns dos modelos existentes ainda não têm garantias suficientes de que não podem ser invadidos por terceiros. Isso representa um risco, claro, uma vez que o uso desse tipo de robô em casas deve crescer na próxima década. Um levantamento da BI Intelligence indica que este nicho crescerá 17% até 2019, ano em que terá movimentado US$ 1,5 bilhão.


O Pepper já vendeu 10 mil unidades que, além de residências, são utilizadas como recepcionistas em lojas, por exemplo. O que aumenta o temor de que robôs possam roubar empregos que se acreditava que apenas os humanos tivessem condições de executar. O robô Termes, desenvolvido por pesquisadores de Harvard, é capaz de construir um prédio de pequenas proporções, com peças pré-moldadas. A intenção é que no futuro eles possam construir estruturas maiores.


No meio acadêmico a dúvida persiste sobre a possibilidade de intervenções desse tipo liberarem trabalhadores de tarefas pesadas ou se serão apenas um fator para aumentar o desemprego. Carl Frey, pesquisador da Universidade de Oxford, em entrevista a BBC, estimou, em 2014, que 47% dos empregos americanos estariam em risco com a ascensão do trabalho computadorizado. Ele também ressaltou que a diferença entre prosperidade e perda de ocupações dependerá de como as pessoas vão se adaptar a estas mudanças.No Reino Unido, um estudo do instituto de pesquisa Reform mostra que não se trata de uma questão tão simples. A pesquisa chegou às manchetes dos principais jornais locais ao sugerir que quase 250 mil funcionárias públicas poderão ser substituídas por atendimentos automáticos e robôs, gerando uma economia de R$ 16 milhões.


E se existe medo, também há expectativa de que nada possa sair do controle. Uma interface conectada ao cérebro humano permite que as pessoas controlem robôs e corrijam seus erros. Embora de aparência inofensiva, com rosto que parece um desenho infantil e braços mecânicos, o robô Baxter, desenvolvido pela Rethink Robotics é um pequeno passo para uma mudança enorme na inteligência artificial. Ele utiliza um sistema desenvolvido pelo MIT e pela Universidade de Boston que lhe permite escanear a atividade cerebral de um humano, para obter feedback de sua performance. Desta forma, é possível dizer ao computador o que fazer, sem palavras ou comandos.


Embora ainda tenhamos um longo caminho pela frente, já não é mais possível ignorar que robôs fazem parte da nossa vida e farão ainda mais em um futuro cada dia menos distante.


Tudo poderá começar com ter um robô que te desperta pela manhã.


Bom dia.

Perspectives

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