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Esse artigo foi originalmente publicado em 10 de Novembro de 2017. A versão original em inglês pode ser encontrada aqui.

É tempo de Tech Radar na ThoughtWorks, o que significa que nós estamos trabalhando duro para terminar a próxima edição que será lançada no dia 30 deste mês. Durante esse período, dormir é luxo.

Brincadeiras à parte, eu já estive envolvida em algumas edições do Radar até o momento. Uma pergunta que sempre me fazem – e que eu também costumava me fazer antes de participar do processo – é: "Como o Tech Radar é criado?". Nesse artigo, eu darei uma visão detalhada sobre o que acontece, como nós nos preparamos e como as decisões são tomadas. Tudo começa com uma reunião de quatro dias.

Primeiro dia

O dia começa cedo, e nós reunimos ThoughtWorkers de todas as partes do mundo para criar a nova edição do Technology Radar. Sempre nos encontramos em um de nossos escritórios - dessa vez foi no escritório em Barcelona, que foi inaugurado ano passado. Se você pensa que a falta de familiaridade com o lugar e o jet lag significam lentidão no início de nossas atividades, pense novamente. Assim que o grupo se junta, se reconecta e cada membro do Conselho Consultivo de Tecnologia toma sua dose de cafeína, nós estamos prontas para começar.

Para quem não sabe, o Conselho Consultivo de Tecnologia é formado por lideranças técnicas da ThoughtWorks de todas as partes do mundo, incluindo nosso cientista-chefe, Martin Fowler. Nossa CTO, Rebecca Parsons, é quem preside a reunião.

Quando nós começamos no primeiro dia, cada membro do Conselho Consultivo tem consigo um conjunto de ideias que vão sugerir para o próximo Radar - os famosos blips. Os blips sugeridos irrompem, na maioria das vezes,  de conversas que eles tiveram em seus escritórios sobre que coisas novas e empolgantes ques estamos usando em nossos projetos.

Dessa vez em Barcelona, o grupo teve que votar em cerca de 180 blips. Isso significa muito debate para chegar a um consenso.

Os blips em potencial são organizados no nosso Radar em quadrantes (técnicas, ferramentas, linguagens e frameworks, e plataformas), e em anéis (evite, avalie, experimente e adote). É sempre útil relembrar o que queremos dizer com cada um desses anéis, visto que nos ajuda a decidir a qual deles cada blip pertence.
  • Evite. Esse é para os blips que nós achamos que os clientes deveriam eliminar gradativamente ou aguardar sua evolução.
  • Avalie. Destinado a ideias que acreditamos serem promissoras e que valem a pena explorar.
  • Experimente. Esta é uma recomendação bastante forte, e nós só colocamos blips aqui se já os vimos serem implantados com sucesso em produção - exceções para essa regra são muito raras.
  • Adote. Para um caso de uso específico, nós o consideramos a melhor escolha.



Para chegar nos cerca de 100 blips que estarão no Radar final, nós escolhemos um quadrante por vez e, dentro de cada um deles,  trabalhamos de dentro para fora, do anel "adote" ao anel "evite". Quem quer que tenha indicado o blip, deve descrevê-lo para o grupo, para que ele seja discutido e votado em seguida. Todas as pessoas têm três cartões de cores diferentes: verde para "sim, eu quero esse blip no Radar"; vermelho para "não, de jeito nenhum isso fará parte do Radar" e amarelo para quando alguém tem uma pergunta ou um comentário. Esses cartões são muito usados ao longo dos 4 dias de reunião.

Bem, quando não temos mais cartões vermelhos, laranja é o novo vermelho ;-)

Dessa vez, nós começamos com o quadrante Técnicas – não só porque é o meu favorito, mas porque as discussões aqui tendem a ter muitas nuances. E com isso, o próximo Tech Radar começa a ser definido.

Segundo dia

No começo do segundo dia, a parede do Radar já aparenta estar um pouco menos cheia – porém não muito. Uma pessoa do grupo assume responsabilidade pelos post-its na parede, enquanto eu garanto que todas as decisões sejam capturadas - é quase impossível lembrar de tudo depois. Quando passando pela parede, essa pessoa identifica  qual blip proposto iremos discutir em seguida e muda o post-it de lugar de acordo com a votação do grupo. Em alguns casos, isso significa colocá-lo no anel que ele foi indicado - no entanto, mais tarde, ele poderá ser colocado em outro anel ou quadrante – ou poderá, inclusive, ser rejeitado completamente.

Ocasionalmente, temos blips que provocam um debate tão intenso que o grupo tem dificuldade de escrever apenas um curto parágrafo sobre o tópico, tendo em vista suas nuances.  Esses são os casos que nós julgamos como too complex to blip, ou em português, muito complexo para virar um blip e compor o Radar. Isso não quer dizer que eles serão esquecidos; na verdade, esses itens são muito importantes e vale a pena se tomar nota. Isso só significa que o Radar não é o local adequado para eles.

Porém, com tantos blips a serem discutidos e votados, é imprescindível que as discussões não parem. Rebecca se mantém atenta aos processos. Enquanto cada blip é explicado, ela procura por cartões amarelos e avisa ao grupo quem será a próxima pessoa da fila a comentar ou fazer uma pergunta. Ninguém interrompe ninguém. Você precisa esperar pela sua vez para expôr o seu ponto de vista.

Os primeiros votos são rápidos. Uma explicação, uma breve discussão e um voto de sim ou não. Até que nos deparamos com um blip mais complicado. Alguns comentários já foram feitos por diferentes pessoas e mesmo assim, muitas pessoas do grupo estão com seu cartão amarelo para cima. Para nos ajudar, Rebecca indica quem está na lista de comentários e nos orienta: "Quando Jonny terminar, nós vamos votar."

A votação é apertada, todas as pessoas mantém a mão levantada até que todos os cartões verdes e vermelhos sejam contados. Enquanto tivermos um cartão amarelo no ar, a conversa continua. E uma vez tomada a decisão, seguimos em frente. Não há nada pessoal nisso e rapidamente damos continuidade.
 

Terceiro dia

No terceiro dia, já lidamos com boa parte dos novos blips. Mas ainda estamos longe de terminar. E, em muitos aspectos, a parte difícil começa agora.

Antes, votamos para decidir se um novo blip merecia estar no Radar. Agora, nós olhamos para os blips que estavam presentes na última edição do Radar, o que geralmente adiciona mais uns 100 blips. Eles ainda são relevantes? Quais devem ser movidos para outro anel? Algum blip precisa ser reescrito? Se a nossa opinião sobre um blip não mudou por duas edições consecutivas do Radar, ele desaparece - pense nisso como um "arquivamento". Há muita coisa interessante para falar! E em alguns casos, forçamos deliberadamente o desaparecimento de blips para liberar espaço no Radar - removendo-os mais cedo do que faríamos caso contrário.




Mesmo assim, ainda temos muitos blips. Agora as discussões se intensificam. O Tech Radar surge da comunidade de tecnologia da ThoughtWorks, formada por pessoas tecnologistas apaixonadas ao redor do mundo. O Radar é fundamentado em nossas experiências trabalhando para os nossos clientes. Consideramos isso um dos seus pontos fortes. Porém, sempre que pessoas são apaixonadas por tecnologia, há sempre grandes chances de haver controvérsias. Nossos debates para o Radar não são diferentes.

Depois, olhamos para os blips que todas concordaram que mereciam estar no Radar, porém não são tão merecedores quanto os outros. O processo de seleção é exaustivo e várias vezes precisamos parar e nos perguntar: qual o conselho para esse caso? Se o grupo não tiver uma recomendação específica ou não chegar a um consenso sobre o que aquele  blip em particular significa, o blip está fora do Radar.

Quarto dia

Três dias de sólidos debates - e possivelmente uma cerveja casual após o expediente, interagindo com pessoas do escritório e fomentando conversas sobre tecnologias que vão além do Radar - cobram seu preço. Praticamente todas as pessoas na sala já estão cansadas, mas ainda temos que acertar os últimos detalhes.

Para ter certeza que vamos terminar no prazo estipulado, usamos uma série de  técnicas. Por exemplo, Rebecca garante que as discussões não se prolonguem incessantemente. Mas também sabemos que ocasiões em que indivíduos irão discordar do grupo acontecem. Isto posto, esses indivíduos têm a chance de mudar as decisões do grupo - o que chamamos de lifeboat - repescagem, em bom português. Quando o Radar está quase pronto, cada membro do Conselho Consultivo de Tecnologia pode escolher um blip para resgatar - no entanto, é preciso convencer o grupo de que o blip merece estar no Radar. Ou pelo menos a maioria, não precisa ser necessariamente uma unanimidade.

No fim das contas, a reunião só vai funcionar se cada uma de nós respeitar a opinião das outras pessoas presentes. A forma com que Rebecca conduz as sessões garante que todas tenham voz e possam compartilhar opiniões, experiências e preocupações. É muito gratificante presenciar discussões de tamanha qualidade, entre pessoas apaixonadas e cheias de opinião, de forma tão respeitosa. Então, mesmo quando o grupo está dividido e a votação é apertada, nós avançamos para a próxima discussão.

Ao final do quarto dia, nós chegamos a uma decisão final sobre o que aparecerá no Radar. Cada vez que estou presente, me surpreendo com as discussões - é um verdadeiro privilégio fazer parte dessa reunião e sempre fico impressionada com as considerações feitas acerca da  tecnologia - sua história, como avaliá-la e os diferentes contextos considerados pelo grupo.

Porém, esse é apenas o ponto de partida do processo de criação do Radar. Agora temos que desaparecer e correr para escrever sobre cada um dos blips, sobre os temas da edição que surgiram das discussões e construir o relatório em si. Fique ligada - o novo Radar estará com você em breve