Menu

Tornando a arte mais acessível através da tecnologia

A grande arte tem o poder de nos inspirar, de tocar nossa alma e de nos fazer refletir sobre a verdadeira natureza de que é ser humano. Para muitos, dentre eles as pessoas com deficiência visual, a arte é um livro fechado, inacessível e impenetrável.

Num esforço para mudar isso, a ThoughtWorks se juntou à artista plástica Lenora Rosenfield para criar a exposição "O Relevo", para a 
Bienal Mercosul de 2018, em Porto Alegre, Brasil. Mais de 6,5 milhões de pessoas no Brasil possuem deficiência visual.

A exposição foi composta de novas interpretações de obras famosas que já foram apresentadas ao longo de dez edições anteriores da Bienal do Mercosul – incluindo o quadro A Negra, de Tarsila do Amaral. Essas re-interpretações foram criadas usando relevo e texturas para propiciar experiências sensoriais outras que a visual, permitindo aos deficientes visuais que conheçam obras de arte através de outros sentidos. Acrescentando a esta técnica, já usada antes pela artista, este ano a ThoughtWorks ajudou a criar tecnologias vestíveis e digitais para tornar a experiência mais rica ainda.

Arte e tecnologia

As obras foram desenvolvidas com a técnica inédita de "afresco sintético" - criada pela artista - e interpretadas nas mesmas dimensões e cores das originais, garantindo às pessoas com deficiência visual formas de compreensão e experimentação por meio do toque.

Complementando a técnica da artista, e em parceria com a mesma, a ThoughtWorks criou tecnologias vestíveis na forma de uma "luva assistiva". Essa luva possui sensores de cor e é capaz de traduzir as cores das obras em sons, sejam eles as próprias palavras usadas para denominar as cores ("azul", "vermelho", "amarelo", etc.), ou gravações ilustrativas das cores, mais apropriadas para deficientes visuais que nunca tiveram nenhuma exposição às cores (barulho do mar, por exemplo, remetendo à cor azul). Com o aparato, os visitantes puderam "enxergar" os trabalhos de Lenora com as pontas dos dedos.


Foto 1: Luva assistiva sendo usada para interagir com mapa mundi vermelho e verde

A união de arte e tecnologia não é nova na Thoughtworks. Por exemplo, nosso escritório de Nova Iorque tem um programa de "Artistas Residentes". Em 2016, a ThoughtWorks colaborou com a Cyborg Foundation para desenvolver novos "sentidos" humanos prototípicos. Os artistas Neil Harbisson e Moon Ribas – em parceria com a ThoughtWorks para o componente tecnológico – acreditam que a psicologia humana pode ser "reformulada" por meio de sensores eletrônicos permanentemente integrados no corpo. No caso desse experimento no Brasil, o "algo mais" é justamente a junção de arte e tecnologia com a finalidade de inclusão.

Tecnologias vestíveis, metodologias ágeis, prototipação rápida, time diverso e empatia com usuários

Várias hipóteses foram criadas pelo grupo de Porto Alegre, que inclusive realizou workshops de vários temas no escritório, incluindo workshops de costura (costurar circuitos eletrônicos em roupas) e de tecnologias distintas que foram usadas durante o projeto, tais como sensores de vibração embarcados, Arduino e outros. Pensou-se em soluções relacionadas a sensores nos quadros, vibração, som, sensores nos dedos, sensores nos quadros, dentre outras hipóteses. Usando técnicas que usamos frequentemente no nosso dia-a-dia, tais como prototipação rápida, validação de hipóteses e inclusão de usuários reais em todo o processo, continuamos testando e refinando, até chegar à solução final.

Foto 2: Time da ThoughtWorks em um workshop de costura

Desiree Santos e Igor Balteiro, ThoughtWorkers que tiveram um papel central no projeto, acreditam que ter um time diverso foi um fator-chave de sucesso. Isso nos permitiu levar em consideração perspectivas que não teríamos visto senão, diz o Igor - por exemplo, como o sistema funcionaria para aqueles que têm deficiência na visão das cores ou perda de sensibilidade na ponta dos dedos.
Mesmo assim, não foi tudo tão tranquilo assim. A Desiree saiu do workshop inicial certa de que a solução consistiria em embutir um sensor de vibração dentro da própria obra de arte. Porém, ficou claro rapidamente que tal solução não atenderia a outros requisitos, como o de flexibilidade para poder usá-la em outros quadros. "Foi um balde de água fria! Tivemos de descartar tudo que a gente tinha feito, e começar tudo de novo", diz.

O time se reuniu novamente em outro brainstorming para "reorganizar o mosaico", e - agora munido dos aprendizados das primeiras tentativas - idealizou um protótipo baseado em outro sentido (a audição), fora da obra de arte (para não interferir no processo artístico) e que, ao mesmo tempo, se deslocasse com a pessoa. Surgiu portanto a ideia de trabalhar com tecnologias vestíveis, e rapidamente nasceu a solução da luva que permitisse à pessoa tocar na obra. A Desiree relaciona a busca por uma solução mais flexível à conexão que o time da ThoughtWorks fez entre software e hardware: "Usamos nossos conhecimentos de software, e aplicamos em hardware, e vejo esta conexão como positiva. Minha experiência com software ajudou a criar um hardware de melhor qualidade. O sensor poderia ter ficado embutido no quadro, mas não teria sido uma solução tão flexível, escalável e elegante. Isso não faz sentido!"




"Tenho orgulho de ter participado deste projeto", diz a Desiree. "É lindo ver como a tecnologia pode abrir portas para um público geralmente excluído e, de fato, democratizar as belas artes. Os usuários da luva sentiram que o projeto foi feito especialmente para eles, e isso toca no meu coração!"

Inclusão e negócios

Nossa experiência e prática mostram que uma abordagem inclusiva não é somente a coisa certa para fazer, mas que traz também benefícios aos negócios, dos quais destacamos três:
  1. Novas tecnologias são duais. Elas podem ser utilizadas nos mais diversos projetos uma vez criadas. Por exemplo, no mesmo escritório de Porto Alegre e utilizando o mesmo laboratório, utilizamos tecnologias baseadas em processamento de imagens e sensores (ambas experimentadas nesse projeto) para geração de valor de negócios em um caso de medição de quantidade de produtos em grandes empresas, como se vê nesse caso de cliente envolvendo prototipação rápida para resolver problemas de negócio com IoT.
  2. Inclusão de diferentes pessoas através da tecnologia significa também inclusão de novas pessoas como potenciais usuárias de novos produtos e serviços. Algumas vezes isso é uma questão de legislação/regulamentação, como por exemplo a criação de softwares acessíveis, em outros casos trata-se realmente de acolher mais grupos de potenciais clientes.
  3. Cada vez mais vemos o aumento de consumidoras conscientes, que levam em conta, ao escolher os produtos que compram, o meio ambiente, a saúde humana e animal, e as relações justas de trabalho. Para eles, compras não são simplesmente uma questão de preço ou marca.
Qual sua visão de um futuro tecnologicamente justo?

A tecnologia não é neutra; ela pode criar um mundo melhor ou pior. Como tecnologistas, precisamos ter consciência dessa responsabilidade. Às vezes, precisamos ser intencionais para tornar a tecnologia mais inclusiva, em vez de criar divisórias digitais.

Na ThoughtWorks, temos o objetivo de ajudar a criar um futuro tecnológico mais justo. A busca por uma tecnologia mais justa é um caminho que pode nos levar em direções surpreendentes. E você, como vê o papel da tecnologia na construção de um futuro melhor?

Sobre Lenora Rosenfield

Gaúcha de Porto Alegre, Lenora Rosenfield tem na pintura em afresco sintético (técnica criada por ela na Itália) o ponto central de sua produção atual. Pós-doutora pela Università degli Studi di Udine (IT), foi professora de pintura do Instituto de Artes da UFRGS (1993 a 2017) e por mais de duas décadas esteve à frente do laboratório de restauração da instituição. É referência em restaurações de obras de arte como as de Pedro Weingärtner, Aldo Locatelli, Glauco Rodrigues, Francisco de Goya, Pablo Picasso e Marc Chagall. A artista está afastada da restauração há alguns anos e em 2017 aposentou-se da vida acadêmica, dedicando-se mais intensamente a sua poética. Seus trabalhos estão no acervo das principais instituições do Estado do RS e em coleções particulares no Brasil, Estados Unidos e Europa