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Coisas conectadas, não dispositivos

A pergunta mais comum que recebo diariamente é “o que exatamente é a Internet das Coisas?”. Demorei um pouco para perceber que o termo mais importante aqui era 'exatamente'. Isso me sugeriu que a maioria das pessoas acreditava entender o termo 'Internet das Coisas' até certo ponto, mas ainda havia algumas lacunas em sua compreensão geral desse termo, que tem sido usado de forma consideravelmente exagerada. Quando decidi inverter isso e perguntar às pessoas o que a 'Internet das Coisas', ou IoT, significava para eles, tornou-se aparente que o problema estava mais na definição aceita do que no hype onipresente da IoT. Todas entendiam o que a 'Internet' era, mas não conseguiam compreender o que 'coisas' significava nesse contexto.

Há muita confusão, desconfiança e mal-entendidos em torno da IoT. Nesta série de artigos, vamos explorar o que a IoT significa e por que isso deve importar para você.

O que há por trás de um nome?

As pessoas freqüentemente se confundem com o termo "coisa". Quando Peter T. Lewis originalmente cunhou o termo 'Internet of Things' em 1985, ele o definiu como:
 
O ponto chave aqui é a distinção entre pessoas, processos e tecnologia, e dispositivos e sensores. Os dispositivos e sensores são simplesmente um meio para um fim, para integrar o mundo real com o mundo digital. Isso engloba todos os aspectos de pessoas e tecnologias (máquinas) interagindo em um ou mais lugares. O processo se refere à série de etapas ou atividades envolvidas nessa interação. A frase não-técnica mais tradicional é "pessoas, lugares e coisas". Pessoas, lugares e coisas geralmente sugerem que qualquer objeto que não seja uma pessoa ou um lugar deve ser uma coisa. Por definição, até mesmo um dispositivo deve ser um tipo de coisa.

O problema principal é que, desde o uso original do termo em 1985, temos testemunhado inovação e progresso de forma incrível e imprevista em todos os aspectos da tecnologia. Em 1985, o termo "Internet" estava em sua infância, e "coisa" geralmente se referia a qualquer objeto para o qual não conseguíamos encontrar um nome.

Pedir a alguém para dar sua definição de "coisa" é como pedir que explique como andar de bicicleta. É uma segunda natureza; todo mundo acredita entender completamente o conceito tão bem que não é necessário explicá-lo. Tecnologistas têm culpa nessa construção, por exemplo quando usam exaustivamente o termo 'nuvem'. É perfeitamente compreensível que todo mundo tenha sua própria definição cognitiva do que uma coisa significa. "Coisa" é, por definição, o termo mais vago já inventado.

Houve muitas tentativas alternativas subsequentes para definir a "Internet das Coisas" desde a definição original de Peter. Isso só resultou em uma diluição do entendimento sobre o que o termo significava em 1985 e o que deveria significar em 2018. Ironicamente, a maioria das pessoas não sabe que IoT é um termo tão antigo e acredita que ele seja muito mais moderno em sua origem.

Em resumo, tecnologistas têm uma obsessão exagerada com dispositivos e sensores no mundo da IoT. Embora estes desempenhem um papel importante, clientes e empresas se interessam apenas no valor e nos benefícios que a IoT pode oferecer, e esse valor está nas coisas e nos dados, não nos eletrônicos. Vamos entender por quê.

Coisas em ação

Um dos casos de uso mais simples que podemos usar para ilustrar a importância de distinguir dispositivos de coisas é uma das tecnologias mais antigas e reconhecidas: a lâmpada simples. Embora as tecnologias subjacentes responsáveis pela criação de energia luminosa ao longo do último século possam ter evoluído, a experiência de uso permanece praticamente inalterada.

Aplicando nossa abordagem a isso, a lâmpada é a coisa e contém um dispositivo interno que a transforma, de uma "coisa sem inteligência" em uma "coisa inteligente". Além disso, temos outra coisa inteligente, que é o interruptor inteligente. Ele também tem um dispositivo interno que transmite, sem precisar de fio, o ato de pressionar para a lâmpada inteligente, usando o protocolo de IoT escolhido (ZigBee, Bluetooth, WiFi, etc.).

A pessoa usuária ativa o interruptor que liga a lâmpada. Pressiona novamente e a lâmpada será desligada. Processo simples. A maioria das inovações da perspectiva de IoT nos últimos dez anos tem sido predominantemente na área de conveniência e controle. Agora temos interruptores sem fio e lâmpadas LED que consomem uma fração de energia, permitindo um controle refinado sobre a intensidade e a cor da luz. Nesse cenário, ativamos o sensor (interruptor) que transmite um sinal sem fio para ligar a lâmpada LED RGB (atuador). O cenário completo se parece com isto:
A smart home setupFigura 1: Configuração de um lar inteligente

O que a pessoa usuária vê

Do ponto de vista da pessoa usuária, toda a complexidade deve ser invisível. Para as pessoas, ainda é um interruptor ou botão que opera a lâmpada. O uso deve ser tão simples que não exija um manual de instruções. O mesmo princípio vale para o aplicativo móvel. A pessoa usuária final simplesmente se relaciona com a lâmpada conectada da mesma maneira que se relaciona com a lâmpada tradicional. Ela não precisa se preocupar com o fato de que a lâmpada na realidade contém um dispositivo e um atuador que controla a potência do LED. Ela também não precisa saber que o interruptor de luz com o qual está familiarizada há tanto tempo é agora uma combinação de um interruptor, um sensor e um dispositivo. Ela tem uma lâmpada e um interruptor. Estas são as "coisas" às quais nos referimos. São objetos do mundo real, e precisamos garantir que escondemos qualquer complexidade desnecessária para o produto ser bem-sucedido no mercado.

O que a pessoa desenvolvedora vê

Da perspectiva de uma pessoa desenvolvedora, os mesmos princípios de abstração de coisas e dispositivos se aplicam. A pessoa desenvolvedora obviamente precisará entender o modelo básico de dados da 'coisa' que suporta a criação de experiências de uso novas e inovadoras, mas isso deve acontecer da maneira mais intuitiva possível. Não se deve exigir que as pessoas desenvolvedoras compreendam totalmente o funcionamento interno dos dispositivos e protocolos de comunicação. É responsabilidade de quem cria o dispositivo ocultar a complexidade do hardware e, ao mesmo tempo, garantir a segurança e a estabilidade do produto a longo prazo. O sucesso de um produto de IoT depende criticamente de sua usabilidade e do modelo de dados ser amigável para a pessoa desenvolvedora. Clientes não compram ou usam produtos muito complicados. Por isso, é natural que as pessoas desenvolvedores queiram criar software apenas para produtos simples, divertidos de trabalhar e comercialmente atraentes.

Coisas não são dispositivos, mas dispositivos são coisas

A maioria das definições alternativas de IoT geralmente gira em torno do alinhamento da IoT às tendências tecnológicas atuais que podem ser consideradas "da moda". Fornecedoras e profissionais de marketing também exploraram com êxito a IoT como uma oportunidade de vender mais produtos, serviços ou "fazer barulho". Infelizmente, isso resultou no uso indiferenciado dos termos "coisas" e "dispositivos", na tentativa de articular esse conceito emergente para stakeholders. A diluição da distinção entre coisas e dispositivos só aumentou à medida que o conceito de IoT foi comercializado para pessoas consumidoras e usuárias finais, que sabiam ainda menos sobre o conceito de dispositivo e por que deveriam se importar com isso. Peter T. Lewis distinguia coisas de dispositivos, mas essa clara diferenciação parece ter sofrido um processo de erosão ao longo das décadas.

Na minha experiência, a maioria das organizações e principais stakeholders veem a segurança (a Internet das Ameaças) como uma das principais desvantagens da adoção de tecnologias de IoT em seus negócios. O restante cita a confusão na terminologia expressa por fornecedoras e profissionais de marketing como responsável pela falta de fé na Internet das Coisas. Quando discutimos as 'coisas' na IoT, a grande maioria das pessoas e organizações está realmente se referindo ao dispositivo associado à coisa e não à coisa em si.

Há uma confusão entre dispositivos e coisas que está cegando as pessoas para as oportunidades que a IoT pode oferecer e, sem entender a oportunidade, elas deixam os medos relacionados à segurança e a preguiça do hype influenciarem em seu julgamento.

As empresas de tecnologia estão se concentrando demais nos aspectos tecnológicos da IoT e, como resultado, têm uma percepção incorreta dos dispositivos de hardware como coisas. Isso resultou na ênfase excessiva do componente de dispositivos na IoT, na perspectiva da pessoa consumidora. Sim, os dispositivos são uma parte importante da IoT, mas pessoas reais, empresas e tecnólogos só precisam se interessar pelas coisas com as quais interagem no mundo real. Os dispositivos são simplesmente um facilitador para a interface do mundo físico com o mundo digital.

Se não pudermos mais ver a relevância da IoT para pessoas reais, então corremos o risco de que a "Internet das Coisas" seja realmente a "Internet dos Dispositivos". Isso já é claramente visível nos milhares de dispositivos de IoT que aparecem no mercado, projetados por pessoas tecnologistas centradas em dispositivos que não compreendem aspectos de design centrados na pessoa usuária que vai usar os produtos. Produtos projetados por tecnologistas para tecnologistas não representam um modelo comercial sustentável e são prejudiciais para a minoria de designers de dispositivos e produtos que entendem plenamente a importância da pessoa usuária na equação.

Mesmo quando nos referimos a casos de uso da IoT Industrial (IIoT), nos quais a pessoa usuária não tem uma interação física direta com os dispositivos e sensores (além da instalação inicial), ainda há uma necessidade de garantir que os dados realmente se relacionem com a coisa física em si no mundo real. Quando falamos do setor de Lar Inteligente e Automação Residencial, se nos concentrarmos muito no aspecto eletrônico, isso pode resultar em produtos voltados para pessoas amadoras e adotantes precoces, com uma ênfase excessiva nos aspectos tecnológicos do produto. Esses são os produtos normalmente chamados de “gadgets”, quando não são mais do interesse ou a empresa responsável deixou de existir.

Esse problema também é evidente com a proliferação de "Plataformas de Internet das Coisas" que são, na realidade, 'Plataformas de Internet de Dispositivos'. As gerações anteriores de pessoas desenvolvedoras que se concentravam no espaço da IoT precisavam de um profundo conhecimento e experiência de hardware do dispositivo e linguagens de programação de baixo nível. As pessoas desenvolvedoras de hoje não devem mais ser limitadas por essas expectativas de hardware herdadas. Embora sempre precisemos de algum grau de conhecimento de hardware para integração de dispositivos, a pessoa desenvolvedora atual deve ser capaz de interagir com a 'coisa' em um nível abstratamente definido, desde que entenda como sua 'coisa' funciona no mundo real. Quanto menos a pessoa desenvolvedora precisar saber sobre o modelo do dispositivo, mais rapidamente poderemos inovar e entregar valor real às pessoas proprietárias e fabricantes do produto.

Você diz "Internet das Coisas", nós preferimos "Coisas Conectadas"

O cenário da Internet das Coisas é agora tão altamente competitivo e veloz que produtos que antes levavam anos para serem desenvolvidos agora podem ser realizados em meses ou até semanas para um protótipo funcional. Essa agilidade não deve ser permitida em detrimento da usabilidade de clientes ou da acessibilidade de pessoas desenvolvedoras. Clientes não terão interesse em comprar produtos, a menos que pessoas desenvolvedoras de terceiros sejam incentivadas a desenvolver essas plataformas. Um rico ecossistema de desenvolvimento pode imaginar e executar recursos para produtos inteligentes que nunca seriam imaginados por quem criou o dispositivo original. O esforço e o custo devem ser investidos na criação de Interfaces de Programação de Aplicativos (APIs) e no ecossistema de desenvolvimento bem antes de o produto ser lançado no mercado.

A chave para o sucesso é, portanto, uma abordagem centrada no ser humano para o design do produto e um foco centrado na pessoa desenvolvedora para dados do produto. Para que isso seja possível, precisamos reformular a definição de "Internet das Coisas". Produtos inteligentes nem sempre precisam ou deveriam precisar de se conectar à Internet. Mais importante, devemos entender que uma 'coisa' não é o dispositivo em si. Quando compreendemos esses princípios como fabricantes de produtos, estamos em uma posição muito mais forte para cumprir a visão original proposta por Peter T. Lewis há mais de 30 anos. Por essa razão, na ThoughtWorks, preferimos o termo "Coisas Conectadas" à "Internet das Coisas".

Em meu próximo post, discutiremos o aspecto dos dados das Coisas Conectadas e entenderemos como obtemos valor real dos dados, e não do hardware