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CORAGEM #4


Subjetividade, oportunidades e coragem: sobre portas abertas


Luciano Ramalho


O primeiro computador que eu programei foi um Apple II de 8 bits, em 1981. Eu era estudante de intercâmbio no ensino médio em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Cada turma tinha um horário fixo de sala de estudos: a gente era obrigado a ficar 50 minutos em silêncio dentro de uma sala, com uma professora vigiando. Podia fazer o que quisesse: ler revista, dormir na carteira, desde que não desse um “piu” nem saísse do lugar. Muitas pessoas aproveitavam para fazer a lição de casa. Eu ficava revoltado por dentro e tentava dormir.


Um dia, a bibliotecária da escola entrou na sala de estudos e disse que a escola tinha recebido os primeiros computadores: três Apple II estavam disponíveis na biblioteca e quem quisesse podia ir aprender a mexer com eles, em vez de ficar na sala de estudos. Só não ia ter ninguém para ensinar.


Quando ela perguntou quem queria ir, só eu e outro estudante levantamos a mão, entre 60 na sala de estudos. A galera preferiu ficar quieta por 50 minutos do que ir até a biblioteca tentar aprender algo novo lendo o manual e mexendo no computador.


Sempre tive orgulho dessa história. E ela me fazia acreditar na meritocracia. Afinal, a oportunidade foi oferecida para todo mundo, e só eu e um colega aproveitamos. Mas o que aconteceu lá na verdade foi resultado de muitas outras oportunidades.


Desde os 11 anos eu fazia inglês à tarde depois da escola. Praticava inglês lendo revistas importadas que meu pai assinava e regras de jogos de tabuleiro que meus pais traziam de viagens. Na adolescência, tinha bastante tempo livre, não precisava trabalhar. Na minha infância não existiam tablets e nem mesmo a Web, mas minha mãe leu muitas histórias para mim, e no meu quarto de adolescente havia muitos livros, incluindo uma enciclopédia. Aprendi a programar mexendo em uma Texas TI-58, calculadora programável que meu pai ganhou na firma onde trabalhava, e voltei do intercâmbio com meu 1o computador na mala: um TRS-80 Color Computer. Segui praticando programação até conseguir um emprego na Apple House, empresa que vendia clones da Apple. E, com ajuda do meu pai, comprei finalmente um Apple Senior.


Prestei serviço para portais como UOL, AOL Brasil e IDG Now. Para o Governo Federal e outros clientes. Fui o primeiro presidente da Associação Python Brasil e o primeiro brasileiro a ter um livro sobre Python publicado pela editora O’Reilly Media nos Estados Unidos.


Ao entrevistar pessoas programadoras para meus times, sempre perguntava se elas programavam por hobby. A pergunta não era eliminatória, mas eu dava um bom peso para as respostas. É como hoje pedir para ver projetos pessoais no GitHub, plataforma de hospedagem de código. Se a pessoa programa por curtição deve ser um bom sinal. Afinal, foi assim que eu comecei, e tenho orgulho da minha carreira.


Sabe de uma coisa? É uma pergunta péssima. Ela favorece as pessoas mais privilegiadas, que são as que têm mais tempo livre. Aprendi isso com a galera do Garoa Hacker Clube, e também aqui na ThoughtWorks.


O meu maior mérito na história de como comecei a programar foi a minha curiosidade, aliás, estimulada desde sempre, em casa. Brincando com calculadoras, eu me preparei para programar computadores.


Então, em vez de se iludir com o conto de fadas da meritocracia, é preciso reconhecer as oportunidades que nos são dadas e proporcionar oportunidades a quem não as teve desde de sempre. O retorno é incrível, garanto.

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