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CORAGEM #4


Efetividade antes de velocidade


Lee Ka Wai e Gregório Melo


Você ainda não viu a imagem final do quebra-cabeça. Mas está montando. E sabe que ela vai ser capaz de modificar a ideia que as pessoas têm sobre quebra-cabeças. Talvez, essa seja a sensação experienciada por grande parte das pessoas que trabalham em empresas de desenvolvimento ágil.


Os métodos, processos e fluxos são capazes de modificar culturas, formas de trabalhar e de liderar. E de transformar empresas tradicionais em empresas verdadeiramente competitivas no mercado do agora. Com times autônomos, trabalho colaborativo, Scrum, Lean, Kanban, desenvolvimento de plataformas evolutivas, entrega de valor, visão de cliente ao centro.


Nós vemos, com frequência, o desejo das organizações de extrair mais produtividade das suas equipes, na expectativa de que isso contribua para lançar produtos mais rápido que a concorrência e, assim, se destacar no mercado. E essa velocidade se torna cada vez mais cobiçada com a popularização de termos extraídos de metodologias de desenvolvimento de software. Ora, quem não quer ser ágil?


Entretanto, essa busca pode levar a uma armadilha, camuflada por termos como “velocidade” e “agilidade”. O problema aqui é a ânsia por fazer os times, isoladamente, aumentarem sua velocidade de entrega, sem que haja o devido investimento em outras mudanças necessárias para que uma organização, como um todo, aumente sua capacidade de entrega.


Imagine que na sua empresa um time consiga duplicar sua capacidade de entrega. O que significa a entrega realizada? Ela já está nas mãos das pessoas que vão utilizar o produto? Qual é a capacidade de coletar informações sobre a experiência dessas pessoas usando o produto? E, mais importante ainda, como reagir a essas informações para melhorar a experiência em uma próxima entrega?


É possível fazer aqui um paralelo com os conceitos de “eficiência” e “efetividade”. De forma bem simplificada, podemos dizer que a eficiência se relaciona mais à velocidade de execução, enquanto a efetividade abrange tanto os processos quanto os resultados: é a capacidade de fazer as escolhas certas, na hora certa, usando as melhores alternativas possíveis em termos de ferramentas, investimento e pessoas, por exemplo.


Na prática, significa que além de decisões de tecnologia, métodos de trabalho, mudanças processuais e/ou geração de novas fontes de receita, criar um ambiente que permita relações humanas prósperas é um investimento a ser considerado como um primeiro passo para atingir uma maior efetividade nos negócios.


Um bom exercício é fazer alguns questionamentos sobre a cultura e as práticas da empresa:


// Quão cedo consultamos clientes verdadeiros, em vez de seguir puramente a intuição de quem tem posições mais altas no organograma?

// Eu consigo testar minhas mudanças com facilidade?

// Quanto investimos no nosso time para que o trabalho seja melhor, não só mais rápido?

// As ferramentas que as equipes têm permitem que cada pessoa tenha uma experiência positiva no desenvolvimento? Elas enxergam o propósito do que fazem?


Apesar das intensas mudanças que o mercado vem sofrendo, a inteligência que move a transformação ágil e digital das grandes organizações está, ainda, nas decisões humanas. Por trás disso tudo, temos pessoas, únicas em suas maneiras de pensar e agir.


Deixar de experimentar novas alternativas por medo do que ainda não foi testado é um sintoma comum da mentalidade de gestão tradicional de empresas. Os desdobramentos desse medo são investimentos falhos, desperdício de esforços e, cada vez mais, perda de espaço no mercado.


Ainda persiste a crença no processo padronizado de produção em escala e velocidade de entrega em curto prazo, sem considerar as reais necessidades do negócio e do mercado. E gerar resultados, impacto e influência em um mercado competitivo depende de pessoas com coragem para liderar iniciativas fora da zona de segurança dos processos tradicionais.


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