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CORAGEM #5


Nós, tecnologistas

Biamichelle Miranda e Roselma Mendes


Protagonismo feminino. Sim, a luta das mulheres tem avançado em espaços políticos, na ciência e na computação; no mercado de trabalho, nas conversas e nas salas de reunião das grandes empresas do mundo. Políticas de gênero e questionamentos relacionados ao número de mulheres que compõem o quadro funcional, seus cargos e salários vem sendo colocados na ordem do dia para debates. Mesmo assim, as progressões ainda parecem acontecer lentamente. Um dos motivos para isso é o fato de que os critérios usados para determinar status ou reconhecimento financeiro ainda são muitas vezes disfarçados de mérito, o que em geral privilegia homens, brancos, cisgênero e de classe média.

Isso reflete, por exemplo, na forma como as pessoas percebem os indivíduos que criam, constroem, transformam a sociedade, viciando nosso olhar para o masculino, heteronormativo, cis, branco. E, por mais que a nossa história seja de apagamento das mulheres como responsáveis pelo desenvolvimento de tecnologias e conhecimentos estereotipados como masculinos, essas mulheres existem na história, e existem e resistem ainda hoje, perpassando pelas mais diversas áreas de conhecimento, contribuindo com a sociedade desde sempre.


Diante do cenário atual, pode não parecer, mas as mulheres estiveram presentes no mercado da tecnologia desde o seu início.


Ada Lovelace escreveu o primeiro programa de computador do mundo, em 1843. Apesar de não ter sido reconhecida ainda no seu tempo, mais de um século depois, em 1979, o departamento de defesa dos Estados Unidos a homenageou nomeando um código de linguagem como “Ada”. Em 2009 ela ganhou um dia: o AdaLovelace Day é celebrado todo 15 de outubro, para lembrar os feitos do sexo feminino na engenharia, ciências, tecnologia e matemática.


Lynn Conway desenvolveu nos anos 70 inovações que causaram impacto no design dos chips em todo o mundo. Muitas empresas de tecnologia de ponta baseiam-se ainda hoje no seu trabalho. Em 1968, foi demitida da IBM após expressar abertamente sua transexualidade. Ela seguiu a carreira de programadora e se tornou professora universitária e ativista pelos direitos das pessoas trans nos EUA.


Margareth Hamilton, cientista da computação, desenvolveu o conceito moderno de software e criou o programa de voo utilizado na Apollo 11, a primeira missão tripulada à Lua.


O mundo foi inventado por mulheres. Negras!


Aqui, pedimos uma atenção especial. Pensando nas invenções e nas vozes das mulheres que foram silenciadas por séculos, você consegue imaginar quantas delas eram negras? Apesar de serem maioria entre as mulheres empreendedoras e entre as que mais possuem conhecimentos milenares de medicina e afins, são as mulheres negras que estão na base da base da pirâmide no desenvolvimento social, e ainda hoje sequer são remuneradas justamente pelos seus trabalhos.


Como bem observou Viola Davis, a atriz negra com maior número de indicações ao Oscar da história, “a única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade”. Oportunidade de trabalho, claro.


Mas também de se desenvolver, de crescer e se capacitar. Enegrecer e “mulherar” do estágio à presidência. Em todos os setores.


O filme Estrelas Além do Tempo contou a história de três das diversas mulheres negras que trabalharam na NASA durante o período da corrida espacial.


Katherine Johnson, física e matemática que calculou as trajetórias para muitas missões da agência e foi essencial no lançamento do primeiro americano para o espaço.


Mary Jackson, a primeira engenheira negra da NASA, influenciou a contratação e promoção de mulheres no ramo da ciência, engenharia e matemática na agência espacial americana.


Dorothy Vaughan, a primeira mulher negra a ser supervisora de um setor da NACA (National Advisory Committee for Aeronautics, que viria a ser tornar National Aeronautics and Space Administration — NASA), em um período de grande segregação racial nos Estados Unidos.


Poderíamos lembrar ainda de Annie Easley, desenvolvedora de software do Centaur, um dos mais importantes lançadores de foguete de alta energia da NASA.


Ou de Christine Concile Mann Darden, engenheira aeroespacial que liderou o Grupo Sonic Boom da NASA.


Mae Jemison, médica, engenheira, astronauta e primeira mulher negra a viajar para o espaço.


Valerie Thomas, cientista que inventou o transmissor de ilusão 3D e desenvolveu sistemas de dados de computador em tempo real para apoiar centros de controle de operações de satélite.


Alice Ball, química que aos 23 anos criou o primeiro tratamento efetivo para a lepra.


Patricia Bath, inventou o Laserphaco Probe, um dispositivo que melhorou o tratamento para pacientes com catarata.


A história é prova viva de que as mulheres foram e são fundamentais para os mais importantes avanços científicos e tecnológicos da humanidade. Por que, então, a regra geral é associar perfis e estereótipos masculinos a essas áreas de conhecimento?


Voltando um pouco no tempo, entre os anos 1950 e 1960, quando as empresas começaram a se dar conta da importância que a computação viria a ter para seus negócios, elas se viram obrigadas a pensar em práticas para contratar as melhores pessoas na área. Como essas empresas não tinham a menor ideia dos perfis que essas pessoas deveriam possuir, os psicólogos William M. Cannon e Dallas K. Perry foram encarregados de definir as características que esse grupo de profissionais deveria ter.


O primeiro mecanismo de seleção usado pela indústria procurava por homens antissociais e inclinados à Matemática, e portanto homens antissociais, inclinados à Matemática foram em demasia representados dentro do grupo de programadores; isto reforçou a percepção popular que programadores deveriam ser homens, antissociais e inclinados à Matemática.

— Nathan Ensmenger, no livro The Computers Boy Take Over


A conclusão da pesquisa da dupla refletiu o modelo de sociedade em que ela estava inserida: quando programar era considerada uma tarefa fácil, um trabalho mecânico em sua essência, as mulheres não só eram aceitas como também consideradas perfeitas para o trabalho. Quando a computação começou a evoluir e ganhar o estigma da complexidade, as pessoas consideradas mais aptas para o trabalho passaram a ser os homens.


A percepção desse perfil teve influência também na determinação de atividades para meninos e meninas: enquanto as meninas eram incentivadas a brincadeiras que remetem a atividades domésticas, meninos eram incentivados a brincar com vídeo games e eletrônicos. Consequentemente, eles tinham melhores oportunidades para desenvolver habilidades com as máquinas.


As mina pá


As mulheres estão revolucionando o mercado de tecnologia no país. A frase que você acaba de dizer (sim, ler é falar em voz alta dentro da nossa cabeça) é bem mais que um arroubo de parágrafo.

Algumas décadas após a tomada da tecnologia pelo perfil determinado pela indústria americana nos anos 60, a realidade das mulheres na área ainda é dura, sim. No Brasil, de acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD), elas ocupam 20% das vagas de TI. Apesar de, na média, terem mais escolaridade do que os homens, as profissionais de tecnologia no Brasil ganham 30% menos — grandes empresas estão revendo suas escolhas e aumentando os investimentos em projetos para ampliar a presença feminina no setor. Por que será?


Porque além de ser um compromisso social lutar pela equidade e aumentar a participação de minorias no mercado de trabalho, está — falando na língua do mercado — provado e registrado por consultorias como McKinsey&Company e Universidades como o MIT (Massachusetts Institute of Technology) que times mistos resolvem problemas em menos tempo e usando menos que o orçamento estipulado. Pois a diversidade de percepções é a essência da inovação e da criatividade.


No entanto, o preconceito ainda mostra os dentes. Discriminação e assédio não são incomuns. E constam entre os motivos para que (ainda e por enquanto) apenas 15% das alunas dos cursos de TI no país sejam mulheres, de acordo com o último Censo de Educação Superior no Brasil, feito em 2012.


Acontece que essas mulheres estão dispostas a transformar essa realidade. E estão trabalhando juntas para tornar o ensino da tecnologia um caminho possível, justo e absolutamente cheio de oportunidades para mulheres. Sejam elas trans ou cisgênero, brancas ou negras; homo, bi ou heterossexuais.


Aqui na ThoughtWorks, esse compromisso é um movimento diário. Tanto, que das 9 pessoas do nosso time de Liderança Estratégica no Brasil, 5 são mulheres. Incluindo aí os 3 principais papéis de direção da nossa operação brasileira. Investimos em programas como o WiLD (Women in Leadership Development) — um treinamento para mulheres na liderança ou que possam se desenvolver para ocupar esses papéis — e grupos internos de atividades, como o Gender Justice e as Latinas. Além de apoio a cursos e encontros focados na democratização do acesso à tecnologia para mulheres.


Como resultado, 40% da nossa equipe hoje é de mulheres. Se analisarmos exclusivamente as pessoas dedicadas a projetos de tecnologia, temos 36% de mulheres hoje. Em 2016, fomos premiadas pelo Anita Borg Institute como a melhor empresa para mulheres tecnologistas trabalharem nos Estados Unidos. E agora, no 2017 que ainda está correndo, ficamos em 9º lugar no ranking das 30 Melhores Empresas para a Mulher Trabalhar no Brasil da consultoria Great Place To Work. Esses números são os ideais? Não. Esses prêmios tampouco são um sinal de que cumprimos a nossa missão em relação à justiça de gênero. São reconhecimentos importantes de que a nossa jornada está no caminho certo — e reforçam a urgência de seguirmos firmes nessa missão.


Ainda há muito a ser feito. Não basta nos concentrarmos em trazer mais mulheres para a tecnologia. Quando a gente fala em diversidade, para que ela seja real, precisamos também falar sobre interseccionalidade. Porque tornar o mercado de tecnologia mais inclusivo e justo para todas as mulheres é um compromisso inegociável. Mas todas as mulheres mesmo: negras, com deficiência, em situação socioeconômica vulnerável, transexuais, travestis, intersexo, não-binárias, homossexuais, bissexuais.

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