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Lidando com a Covid-19


tradução do post publicado originalmente por Martin Fowler em seu site no dia 27 de fevereiro de 2020


Enquanto escrevo isso, a situação da doença provocada pelo coronavírus 2019 (Covid-19) está ficando mais séria, com uma grande chance de se tornar uma pandemia. A ThoughtWorks já foi afetada, pois temos escritórios na China, incluindo Wuhan, a cidade que foi o epicentro do surto.


Não quero ser alarmista em relação à Covid-19. Provavelmente é um problema tão grave quanto uma gripe sazonal, que as pessoas esquecem que mata regularmente dezenas de milhares de pessoas por ano nos Estados Unidos. Porém, essa palavra "provavelmente" faz toda a diferença. Ainda não sabemos muito sobre esse vírus, e essa incerteza faz parecer importante que as pessoas reajam de maneira diferente. Eu cancelei algumas viagens internacionais devido a isso e sou grato não porque estou muito preocupado em ficar doente, mas porque não quero ficar preso por um bloqueio de quarentena.


Na China, as autoridades impuseram um bloqueio total de cidades em todo o país. As pessoas precisam ficar em casa e todos os nossos escritórios estão fechados. O impacto disso em nosso trabalho é variado. Nossos escritórios na China realizam trabalhos tanto offshore quanto locais. O trabalho offshore é bem menos afetado. Nossas equipes estão em operação remota, todas trabalhando de casa. No entanto, a maior parte do nosso trabalho no país é local, o que deixou nossas clientes com a opção de suspender o trabalho ou experimentar involuntariamente o trabalho remoto.


Além do nosso trabalho de desenvolvimento, também precisamos realizar as operações internas da empresa. Isso não nos afetou muito. Nossa natureza global fez a maioria das pessoas na ThoughtWorks se acostumarem ao trabalho remoto há algum tempo, portanto, essa mudança não foi um grande impacto. Nós trocamos de chamadas de áudio para videochamadas em 2012/13 e eu me acostumei tanto a fazer videochamadas que, quando outra organização me coloca em uma chamada apenas de áudio, parece que estamos voltando à Idade da Pedra (ou pior, aos anos 90).


Nós apreciamos o valor de uma certa quantidade de reuniões presenciais, mas, para não causar ainda mais confusão tendo que reagendá-las, podemos lidar com um período sem. Cancelamos todas as viagens tanto de ida como de volta à China há algumas semanas e temos um grupo global monitorando informações de saúde para que possamos nos manter por dentro dos informativos de viagem.


Até agora, nosso maior desafio foi reorganizar nossa ThoughtWorks University. A TWU é um treinamento para pessoas que estão ingressando na ThoughtWorks. Inicialmente era realizada na Índia, mas nos últimos anos também estava sendo realizada na China. Devido à Covid-19, tivemos que transferi-lo em pouco tempo para o Brasil. Reorganizar as pessoas e o espaço físico, sem falar nas complexidades dos vistos, foi um enorme esforço.


Nossos times na China foram questionados sobre como se sentem com a mudança para o trabalho remoto e se isso afetou sua produtividade. 40% disseram que melhoraram sua produtividade com a mudança, 40% disseram que não havia diferença significativa e apenas 20% disseram que estavam rendendo menos. Devemos tratar esses números com cautela: afinal eles são auto-relatados, são julgamentos qualitativos. É provável que o efeito Hawthorne esteja entrando em cena. As pessoas também relataram que, como não podem sair de casa, estão ficando entediadas e gastando mais tempo no trabalho.


A produtividade cai em alguns casos pois algumas pessoas não estão preparadas para o trabalho remoto. Coisas simples como uma boa mesa e uma boa cadeira facilitam muito o trabalho em casa. Obviamente uma conexão de internet de alta velocidade é vital. As equipes também precisam ter e se acostumar a trabalhar com ferramentas para colaboração remota. Uma infraestrutura de segurança precisa existir para que as pessoas possam acessar os recursos necessários para realizar seu trabalho em casa. As videochamadas podem ter tornado obsoletas as chamadas de áudio, mas algumas pessoas levam tempo para se acostumar a elas.


Criamos equipes de apoio em cada país para lidar com o impacto de tudo isso. Países diferentes estão enfrentando contextos diferentes, por isso faz sentido lidar com isso país a país, em vez de ter apenas determinações globais. As equipes de apoio estão recebendo ligações de colegas de outros países para transmitir informações a organização chinesa tem muita experiência prática em compartilhar informações. As equipes se concentram primeiro nas pessoas todas estão bem, precisam de algum apoio especial devido à crise? Mesmo que as pessoas da ThoughtWorks não estejam doentes, elas podem ter familiares que estão. Em seguida, analisamos nossos times: as pessoas precisam de ajuda para configurar seus ambientes remotos? Muitas vezes nossas clientes não têm experiência com o trabalho remoto e temos que ajudá-las a se adaptarem também. Quem tem maior experiência com trabalho remoto pode orientar quem é iniciante nesse novo fluxo e com as ferramentas que utilizaremos para realizar as tarefas.


Pedimos às pessoas que estiveram em uma área de alto risco que fiquem em casa por um tempo. Mesmo que o governo local não esteja estabelecendo regras de quarentena, para nós faz sentido agirmos assim para proteger melhor nossas equipes. Pessoas que estão com sintomas de resfriado ou gripe, tendo estado no exterior ou não, também devem ficar em casa. 


A razão pela qual ingressei na ThoughtWorks, e a razão pela qual permaneço, é a nossa cultura uma cultura que há muito tempo defendo para as organizações modernas. Durante uma crise como essa, ganhamos mais do que o habitual com essa cultura. O desenvolvimento de software é uma atividade atolada na incerteza, e nossa filosofia abraçar essa incerteza e aprender a lidar com ela (a mentalidade ágil) nos ajuda quando eventos como esse aparecem no mundo inteiro. Nós nos comunicamos livremente, mesmo quando não temos certeza da situação geral. Cultivar a confiança e incentivar que decisões sejam tomadas por quem tem maior contato com as circunstâncias permite que todas as pessoas tomem melhores decisões.


Mesmo após esse vírus sair de cena, vamos ter que lidar com seu efeito, pois haverá impacto econômico. As clientes estão lidando com quedas na receita e isso também nos afeta. Suspeito que também aprenderemos muito sobre como a tecnologia desempenha um papel importante no enfrentamento de uma crise. Isso pode incentivar muitas organizações a considerar transformações. Possivelmente mais empresas irão pensar seriamente sobre o trabalho remoto, sobre a importância das ferramentas digitais e começarão a mudar sua cultura em direção ao que é realmente necessário para o mundo de hoje.


Leitura adicional


Em 13 de março, publiquei um segundo artigo sobre nossa resposta.


Agradecimentos


Angela Ferguson, Jeremy Gordon, Jie Jessie Xia, Julie Woods-Moss e Sudhir Tiwari debateram sobre os rascunhos deste artigo comigo em um curto espaço de tempo.


Agradecemos às nossas equipes de TechOps que criaram e selecionaram a infraestrutura que nos permite trabalhar remotamente com tanta eficiência.

Saiba mais sobre como a ThoughtWorks tem lidado com a COVID-19